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A literatura ecológica publicada no Brasil

Por Augusto César Carneiro

A literatura ecológica surgida no mundo atual para forçar conscientização e posições políticas e éticas em favor da natureza, o foi por coincidência e também porque os problemas ambientais começavam a surgir explosivamente naquela época, no fim da década de 1960 e princípios de 1970.

Nos Estados Unidos, Barry Commooner e Paul Erhlich escreveram e discutiram em alto nível essa importante questão. Mas um livro se destacou, traduzido simultaneamente para muitos idiomas. Foi o do francês Jean Dorst “Antes que a Natureza Morra”. Da França também veio a melhor de todas as obras “A Enciclopédia da Ecologia”, de Charbonneau e outros. Dos Estados Unidos “Morte e Sobrevivência da Terra”, de Richard Falk; a “Inflação da Técnica/Declínio da Tecnologia na Civilização Moderna”, de Eugene Schwartz, “População/Recursos/Ambiente”, de Paul Ehrlich; “A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson; “A Economia do Século XXI”, de Herman Daly; “A Crise Silenciosa/A Tragédia do Desmatamento e da Erosão”, de Stewart Udall (1966); da Inglaterra “A Grande Ameaça”, de G. Rattray Taylor; da Alemanha “Crimes contra a Natureza”, de Hans Joaquin Netzer; e até um livro especialmente preparado para a Conferência de Estocolmo/72 “Uma Terra Somente/Preservação de um Pequeno Planeta”, de Bárbara Ward. E muitos outros livros, todos publicados no Brasil, em boas traduções.

Depois, também de ótima qualidade, surgiram os brasileiros, primeiro “Recursos Naturais do Brasil/Conservacionismo”, do jovem Antônio Teixeira Guerra (1969); Samuel Murgel Branco com “Poluição/A Morte dos Nossos Rios” (1972), depois José Lutzenberger com “Fim do Futuro? Manifesto Ecológico Brasileiro” (1975), Vasconcelos Sobrinho, de Recife, com o melhor livro de propaganda que já foi editado “Catecismo da Ecologia”. Poderíamos alinhar mais uns 20 ou 30 livros brasileiros e traduzidos todos de alto nível. No Rio Grande do Sul, editamos 25 livros de ecologia, sendo três traduções. Destaca‑se José Truda Palazzo Júnior com “Mamíferos Marinhos Brasileiros”, “Natureza no Jardim” e “Flora Ornamental Brasileira”, além do histórico Henrique Luis Roessler “Crônicas Escolhidas de um Naturalista”.

Mas os tempos passaram e ultimamente ainda continuam saindo livros ecológicos das editoras brasileiras, porém, infelizmente o nível baixou imensamente. O que melhorou foram os nomes e as capas. Bonitas e coloridas atraem os incautos. Livros mal escritos, sem profundidade, desinteressantes e superficiais, tanto os brasileiros como os estrangeiros traduzidos.

Isto apenas comentamos e, numa situação normal como a que vivemos, acho que não devemos desmoralizar um autor só porque sua obra é fraca, porque as editoras não sabem escolher. Porém, há livros que passam dos limites e podem comprometer até campanhas ecológicas pela sua perniciosidade e mau gosto. Trata‑se de uma obra editada no Brasil em 1989, com contínuas reedições, numa adaptação da péssima edição americana de uma estranha entidade ‑ “The Earth Works Group”, que se diz fundada no mesmo ano. O nome é 50 PEQUENAS COISAS QUE VOCÊ PODE FAZER PARA SALVAR A TERRA.

Há erros de interpretação sobre efeito estufa, poluição do ar, camada de ozônio e lixo tóxico. Só para exemplo, quase tudo sobre lixo tóxico é uma confusão notória. Sobre fauna, na questão das baleias e golfinhos, a abordagem é ridícula. Há erros que parecem ser de revisão mas se repetem. As bobagens são tantas que se torna difícil apreciá‑las. Por exemplo: “não compre animais em extinção”. É sabido que a proibição é para todos os animais silvestres brasileiros. Os em extinção são tão raros e uma mensagem assim não alcançaria os 100 ou 200 inconscientes infratores que podem existir no Brasil. O argumento só aumenta a confusão.

Num levantamento total efetuado no livro por ecologista leigo em ciências biológicas, foram encontradas 75 afirmações erradas, inócuas, incompreensíveis, inúteis e até que não dizem respeito à questão ambiental. Além disso, há mentiras, inclusive a maior mentira ambiental surgida até hoje. Senão, vejamos, pois é a primeira a seguir:

Pág. 90: “O despejo de mercúrio na Bahia de Minamata provocou a morte de cem mil pessoas”. A verdade é outra e a sintetizamos: no processo judicial levantado pela população prejudicada, contra a Empresa Chisso, no Japão, em 1956, houve inicialmente 138 demandantes pertencentes a 30 famílias e em seguida mais 574 pessoas pediram para entrar no processo porque se consideravam vítimas e necessitavam beneficiar‑se com os cuidados médicos a que a empresa foi condenada. Morreram menos do que 50 pessoas na época.

Pág. 92: “A cada ano 27 milhões de Km2 de florestas tropicais são destruídas”. Não há no mundo 27 milhões de Km2 de florestas tropicais. É impossível destruir uma área que não existe.

Pág. 48: “O Mercado Comum Europeu importa anualmente do Brasil 200 mil papagaios”. Números absurdos, importação oficialmente inexistente, apenas sabemos que, pelo Paraguai  e Guianas, sai um número regular de animais brasileiros. Não é necessário mentir e exagerar.

Pág. 90: “Os ventos do Pantanal aumentaram de 10 para 80 km/h devido ao desmatamento”. Em que ocasiões? Que desmatamento nos banhados?

Por fim, lastimamos que o conhecido ecologista paulista Rubens  H. Born tenha emprestado seu nome para prestigiar obra tão perniciosa.