Arno Kayser direto do Fórum Social Mundial especial para o AgirAzul (2002)
Impossível ignorar a realização do Fórum Social Mundial. Se nem mesmo o pessoal reunido em Davos o fez, por que nós fariamos isto com um evento que ocorre nas nossas barbas? Ainda mais um evento que já é um sucesso e que colocou nosso estado na mira do mundo. Nem mesmo o argumento idiota do nosso presidente, que perguntou dos gastos do estado com o evento, emplacou. Até o direitoso mais rançoso teve que reconhecer que só a movimentação em hoteis e restaurantes , sem falar na promoção do estado no exterior, pagou em muito o investido no evento pelo setor público.
Só poderia ser um sucesso um evento que começou com uma linda marcha, multicolorida e pacífica em que a polícia protegeu o direito de manifestação (coisa rara neste lado do mundo e que não ocorreu na civilizada suíça).
Manifestação que mais parecia um desfile de escola de samba. Havia de todas as alas. Indios, jovens, religiosos, negros, gays, ecologistas, campesinos, políticos, sindicalistas, professores, anarquistas, punks e um sem número de outros manifestantes. Coisa que lembrou muito as manifestações da ECO 92, pela combinação de protesto e alegria de quem começa a ver a construção de um mundo novo. Manifestação que seguiu a uma manifestação artística maravilhosa debaixo de um céu muito lindo, que se abriu num halo de luz ao entardecer, apontando que o evento seria de muita luz e astral alto.
O que também caracterizou a abertura oficial do evento, aonde a participação artística foi um destaque. É fascinante e renovador ver gente de todo o mundo num único local. Vermos que muitos dos problemas da nossa aldeia tem algo de comum com o de outras aldeias. Que as pessoas estão se organizando em todo o mundo para denunciar os problemas da pobreza, do ataque à dignidade humana e a destruição da natureza. É claro que as propostas de povos tão diversos ainda tem muito que ser debatidas para encontrar as melhores saídas. Mas como disse Boaventura Soares (sociológo Português) está se construindo o princípio da igualdade que atua em sintonia com o principio da biodiversidade. Ou seja, pra usar um exemplo, todo mundo tem direito a uma escola que ensine as coisas de seu lugar junto com os princípios universais.
Certamente muitas coisas ainda ficaram pendentes e muitos temas talvez ainda não tenham sido tocados com a atenção que merecem, mais isto é um trabalho que fica lançado para os próximos Fóruns. Mas, mesmo assim, se tocou nos painéis temáticos(que ocorriam de manhã) e nas oficinas (que ocorriam de tarde) em várias assuntos se dando oportunidade ao diálogo em torno dos temas propostos.
As temáticas foram muito amplas e eram impossível acompanhar tudo. Mas era o que se podia esperar de um evento que reuniu gente de 122 países e atraiu os olhos de centenas de jornalistas e ong`s. Uma amostra de que aqueles que vivem só para o lucro e acumulação de poder tem muitos focos de resistência. Focos que apontam para um mundo em que os benefícios devem ser repartidos entre todos e que todos devem ser parte ativa na construção dos destinos do planeta. Que estas frentes estão se conhecendo cada vez melhor e vendo o que tem de comum e aprendendo a reconhecer a maravilha de suas diferenças.
Uma prova de que um outro mundo é possível como dizia a chamada do evento. Um mundo tolerante e solitário com todos os seres que nele vivem.
Para nossa alegria pudemos encontrar muita gente aqui da terrinha participando como cidadões. Mas, estranhamente, ninguém dos nossos poderes públicos. Como se os problemas de nossa cidade não fosse comuns aos de qualquer cidade do terceiro mundo.